Westworld: a beleza na tragédia do homem artificial

“Deve haver algo de errado com este mundo… algo escondido.” (Dolores Abernathy)

O que não falta são séries de televisão. Só a Netflix lança trocentas todo mês. Como acompanhar todas? Impossível. Em meio à enxurrada de produções de séries, acabamos por receber recomendações que valem a pena serem conferidas. Amigos me recomendaram Westworld, e me dei o trabalho de assisti-la.

Eu não poderia ser mais agradecido a quem me recomendou esta série, cuja primeira e única temporada, de 10 episódios, foi transmitida pela HBO em 2016. A próxima temporada – haja paciência – agendada para 2018.

Não sou fanático por séries, mas, quando gosto, assisto até o final numa sentada. Foi o caso de Westworld, adaptação do filme homônimo de 1973, escrito e dirigido por Michael Crichton, conhecido por Parque dos dinossauros. Persuadido pelas recomendações, me dispus a ver do que se tratava. Westworld bem que poderia ser o prolongamento de algum episódio de Black Mirror, sua temática desdobrada numa única série de vários episódios.

É inevitável classificar ambas as séries como ficção científica, ainda que, a meu ver, elas sejam muito mais do que isso. Aliás, surpreende-me a sofisticação, não apenas em matéria de cinematografia, destas produções. Utilizando o pretexto da ficção científica, tanto Black Mirror quanto Westworld vão muito além da temática futurística clássica, já ultrapassada atualmente. Não se trata de projetar o presente no futuro, mas, pelo contrário, de trazer o “futuro” – não como distopia, mas como atopia – para a realidade presente, desmitificando certa visão romântica de que há um futuro à nossa espera, e que está lá esperando por nós – uma questão de tempo…

O novo homem vitruviano, de Leonardo da Vinci

Ambas as séries têm o mérito de explorar a atualidade para imaginar potencialidades futuras. No caso de Westworld, o tema é a capacidade tecnológica humana de “brincar” de Deus. Num futuro não muito distante, talvez já presente, somos apresentados a uma megacorporação que oferece um serviço aparentemente “revolucionário”: clientes com altíssimo poder aquisitivo podem comprar seus pacotes de viagem para viver uma aventura única em um mundo de faroeste artificialmente criado, em que os habitantes – os hosts, ou “anfitriões” – são androides que mal se distinguem de nós, em todos os aspectos. A única diferença entre nós e eles é que são criaturas cientificamente desenvolvidas, programadas e reprogramadas para habitar aquele universo e servir aos clientes em suas aventuras temerárias.

O gênio demiúrgico do homem teria chegado ao nível de confeccionar, em escala industrial, seres humanos artificiais perfeitamente idênticos a nós, salvo por sua natureza intrínseca – composta não de carne, sangue, ossos e vísceras, mas de uma sofisticada tecnologia capaz de substituir tudo isso que nos constitui naturalmente.

É interessante refletir sobre quem são os verdadeiros protagonistas da estória: se os humanos, enquanto visitantes do parque temático, ou os androides, seus anfitriões.

Há três classes de personagens: os androides-anfitriões, seus criadores (uma equipe de cientistas, engenheiros e programadores) e, por fim, os clientes de Westworld. Mas, seria possível fazer alguma distinção clara entre eles, em termos de humanidade, de realidade?

A empresa de Westworld fabrica diariamente dezenas, centenas de androides, seres humanos que mal se distinguiriam de nós. São produzidos e programados para desempenhar seus papeis em diferentes narrativas, de acordo com cada cliente ou grupo de clientes que chega ao faroeste. Sua diversidade tipológica deve simular a diversidade humana. Ficam armazenados, de pé e despidos, num galpão, até chegar sua hora de serem inseridos em alguma narrativa.

A trama se desenvolve ao redor de alguns dos habitantes de Westworld. Dentre eles, uma recatada moça e seu pretendido caubói, duas prostitutas de cabaré, uma pistoleira e sua gangue (da qual participa o personagem de Rodrigo Santoro, um dos “anfitriões”), um matador despiedado, entre outros. A sacada maior é que, não havendo nenhuma distinção aparente entre seres humanos e androides, dispensa-se todo efeito especial para representar os segundos, interpretados por atores humanos em toda a naturalidade de suas fisionomias.

O mundo do faroeste é tipicamente um no man’s land [terra de ninguém]. No caso deste simulacro, o princípio não se aplica senão a seus habitantes. Os clientes pagam caro para deitar e rolar, para fazer o que bem entenderem neste mundo em que a única regra é que não há regras. O curioso é que não há, ao longo dos dez episódios, nenhuma cliente mulher; todos aqueles que chegam em Westworld são homens, determinados a dar livre curso a seus piores impulsos, à sua embriaguez de poder, ao seu desejo de dispor da vida e da morte, enfim, a tudo que têm de mais perverso. Matam a torto e a direito, estupram, saqueiam, tripudiam. É um ambiente artificialmente controlado em que tudo é possível e não há consequências. As vítimas? Não há “vítimas”, já que foram confeccionadas em laboratório e não são seres humanos reais. Também não há culpados, não há culpa. Seres feitos de borracha, peças e engrenagens não oferecem nenhum obstáculo moral. Por que sentir compaixão por um robô? Como, ademais, apaixonar-se por um?

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Filosoficamente, o que mais me atrai em Westworld é a atualização de uma temática antiquíssima. Refiro-me às narrativas mitológicas que descrevem a gênese do humano e o subsequente conflito entre homens e deuses, a partir da aspiração humana de tomar o poder divino nas próprias mãos. Estas narrativas são pertinentes tanto ao universo grego pagão, como no caso do Prometeu acorrentado, quanto ao universo bíblico.

Esta temática é muito bem problematizada no livro da filóloga espanhola Pilar Vega Rodríguez, Frankensteiniana: la tragedia del hombre artificial (Tecnos, 2002). Aliás, uma das mais significativas referências de Westworld já aparece na vinheta de introdução da série e alude justamente aos antigos autômatos: é a pianola do cabaré que reproduz músicas sem a necessidade de um músico presente. Há música, mas o homem está ausente. Percorrendo a história da criação de seres artificiais, a autora menciona a série de cabeças falantes que o papa Silvestre II teria construído e que sabiam fazer profecias, um leão mecânico inventado por Leonardo da Vinci, o Homem de Madeira de Juanelo (arquiteto e relojoeiro real de Carlos I) que, segundo relatos, costumava caminhar até a cidade para recolher a comida de seu criador, o músico de Vaucanson, o Frankenstein de Mary Shelley – entre outros seres artificiais mais ou menos sofisticados em matéria de tecnologia, como os robôs, ciborgues e androides.

“The Golem: How He Came into the World” (1920)

O maior risco da tendência demiúrgico-titânica do homem, segundo Vega Rodríguez, é que suas criaturas acabem servindo a uma finalidade não construtiva (como contribuir para a qualidade de vida humana), mas infecunda, se não destrutiva: “superar o determinismo do DNA” e suplantar o natural pelo artificial, na tentativa de “negar que a biologia seja destino”. “Qual é a proporção em que um ser humano pode ser substituído para continuar sendo humano: esta é a grande pergunta”, e que se aplica igualmente a Westworld (VEGA RODRÍGUES 2002: 132).

“Nesses romances e filmes, as estruturas narrativas repetem um esquema típico: um cientista perturbado ou ambicioso constrói um ser sobre-humano que finalmente se rebela contra o criador e semeia a morte por toda parte. Ou seja, o criador perde o controle sobre o processo de maturação da criatura” (VEGA RODRÍGUES 2002: 133). Em Westworld, o cientista é interpretado pelo excelentíssimo Anthony Hopkins, cujo personagem é o idealizador e criador, junto com seu enigmático sócio, do parque temático. Não se trata de spoiler, haja visto que é este o fatum reservado à carreira demiúrgica-titânica do homem: basta assistir Eu, robô, adaptação às telas do romance de Isaac Asimov, ou mesmo Matrix reloaded. A revolta das máquinas.

Sir Anthony Hopkins como Robert Ford, criador e diretor criativo de Westworld

A temática do mal, fazendo convergir ética e metafísica, não poderia ser mais pertinente no caso de Westworld. O mal, como o poder, enquanto aquilo que corrompe, degenera, destrói, espalhando dor, sofrimento e morte, e que seria inseparável de qualquer criação, divina ou (sobretudo) humana. Como agir sem compactuar com o mal? Como criar e evitar que a criação acabe se voltando contra o si mesmo, contra tudo e todos, saindo de controle? Temática que se torna duplamente significativa quando se trata de pensar o artificial em oposição ao natural. Não seria o natural, como sugere o filósofo francês Clément Rosset (Da anti-natureza), artificial, no sentido de uma obra do acaso, artifício de uma “natureza” que chega a nos maravilhar e espantar com sua combinação acidental de fatores diversos? Em que consiste a natureza humana? Há uma natureza humana? Segundo Nietzsche, o homem é das nocht nicht festgestellte Tier, “o animal cujo tipo ainda não foi fixado, determinado”, o que significa que a sua natureza (phýsis) consiste propriamente em não dispor de nenhuma “natureza” imutável, essencial, etc. A perspectiva futura (presente!) do pós-humano e do trans-humano parece dar razão a Nietzsche.

Os androides-anfitriões de Westworld estão condenados a uma existência infernal. São programados e recebem diferentes scripts para serem inseridos em diferentes narrativas customizadas de acordo com o gosto de cada cliente, ou grupo deles. Terminada a narrativa, tenham sido brutalmente mortos ou não, técnicos da empresa entram no cenário para recolhê-los. Levam-nos “desacordados” ao laboratório onde serão consertados, terão suas memórias apagadas e reutilizados em novas narrativas. Nada se perde, tudo se transforma. Mas alguns deles começam a despertar lucidamente na mesa de operação ou nu depósito cheio de cadáveres artificiais, lembrando-se das diferentes vidas que vivem e das sucessivas transmigrações por que passam. Eis um motivo tipicamente gnóstico: o despertar para a própria condição, a reminiscência da verdadeira origem e do destino a que se está lançado. É quando a trama começa a se desfazer em direção a um desenlace catastrófico.

Dorothy e Maeve, anfitriãs de Westworld

Eis que, por detrás do horror de tudo o que acontece neste mundo de faroeste, vislumbra-se a existência de certa beleza redentora, tanto para androides quanto para (alguns) humanos inseridos na trama. A beleza do amor, da compaixão, do sacrifício feito por outrem, transcendendo a distinção entre humano e não-humano. Alguns se salvarão, mas ao preço de despertar no inferno, sob o risco de arruinar-se ou de aniquilar-se completamente. A experiência da tragédia é a condição da redenção. E a grande provação do amor, de um amor que pode ser mesmo indestrutível. Após assistir Westworld, fico com a questão colocada no filme de Steven Spielberg (idealizado por Stanley Kubrick, que não pôde realizá-lo, passando sua responsabilidade ao amigo), Inteligência Artificial: Somos capazes de dar vida a seres artificiais que são capazes de amar e de amar-nos. Mas, somos nós capazes de amá-los de volta?

Rodrigo Menezes, 10/01/2017