Vincent van Gogh e os Pós-Impressionistas – em breve no CCBB-SP

starry nightA vida parisiense e o cotidiano na arte.

A exposição vindoura sobre pós-impressionismo no Centro Cultural Banco do Brasil, prevista para março de 2016, está sendo idealizada como uma continuação da mostra de 2012 Impressionismo: Paris e a Modernidade, segundo o diretor do CCBB, Tadeu Figueiró, em confirmação à Folha de S. Paulo. Nela, figuraram nomes estabelecidos do impressionismo e do pós-impressionismo, como Claude Monet, Edgar Degas, Edouard Manet, Toulouse-Lautrec, Paul Cézanne, Paul Gauguin e Vincent van Gogh. Alguns desses mesmos nomes fizeram parte inicialmente do movimento impressionista e daí partiram para investigações artísticas diversas que constituiram o pós-impressionismo, abrindo caminho para as vanguardas europeias do século XX. Dentre esses, vale destacar van Gogh, Gauguin e Cézanne, considerado o pai do cubismo.

A mostra deu ênfase ao cotidiano artístico parisiense do final do século XIX, lar de todos esses mencionados artistas que protagonizaram uma mudança de foco na temática da arte. Em contraste com a tradição neoclássica que ainda prevalecia nos Salões de Arte parisienses, suas telas retratavam não mais os feitos de homens de poder político e social, mas sim o que é comum – a vida nos cafés, nos teatros, nas ruas, a vida boêmia e a gente da cidade; a passagem das horas; a impressão do movimento; e também a figura do próprio artista e sua vida pessoal. Os objetos do olhar artístico passaram a ser os “herois da vida moderna”, segundo um dos textos que compuseram a parte conceitual da mostra, e a impressão que tinham os artistas desse ambiente de que faziam parte.

Charles Baudelaire, poeta das multidões, já bem havia notado em O Pintor da Vida Moderna (1863) que, embora tudo o que é belo nos cause uma impressão unificada e atemporal, existe a beleza histórica, de época. Pode-se percebê-la nos costumes, nas vestimentas e nos modismos, naquilo que é frugal e passageiro em comparação ao eterno. Na vida comum, podemos notar as diversas nuances que a beleza assume. Essas variações, segundo Baudelaire, constituem um invólucro necessário e apropriado à natureza humana para que possamos digerir a beleza.

800px-Claude_Monet,_Impression,_soleil_levantImpressão, Nascer do Sol, Claude Monet, 1872; Musée Marmottan Monet, Paris.
Pintura emblemática que deu nome ao Impressionismo.

As obras impressionistas, além de encontrar a beleza no cotidiano e seus pequenos atos, nos apresentam camadas cromáticas muito aparentes, com predominância do jogo de cores sobre os contornos das figuras – a massa da pintura triunfa sobre o desenho. A princípio essas obras foram consideradas ultrajantes por uma tradição que valorizava a beleza das composições neoclássicas e o estudo da arte formal, com base em técnicas de realismo, contornos bem definidos e certa impessoalidade gestual. Ao contrário, os impressionistas permitiam que a subjetividade técnica na pintura se sobressaísse, através de massas sem contorno e pinceladas marcantes, de forte gestualidade. Parte dessa impressão é devido à velocidade da mão do artista, que se apressava para captar em sua paleta a incidência efêmera da luz nos diversos momentos que compõem o dia: os breves tons no pôr e nascer do sol, a luz artificial em contraste com a natural, a difusão dos raios solares através da neblina e um curioso efeito de prisma, fracionando em inúmeros tons visíveis a luz que incide sobre corpos e objetos.

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À esquerda: Terraço do Café em Arles à Noite, Vincent van Gogh, 1888.  Kröller-Müller Museum, Otterlo.  A pintura mostra o contraste entre a luz artificial do café e o azul salpicado da noite.

À direita: Terraço do Café à Noite, Vincent van Gogh, 1888. Vê-se no estudo os movimentos e texturas que van Gogh transportava gestualmente do desenho para a pintura.

Vincent van Gogh, apesar de ter conhecido os expoentes do impressionismo e demonstrar inegáveis traços em comum com eles, foi de certa forma alheio em relação ao movimento, cujo conceito tinha dificuldades em assimilar. O estilo que desenvolveu em sua obsessão pictórica abre caminho para a subjetividade emocional ainda mais profunda do expressionismo e para a desconstrução do movimento abstrato nos anos subsequentes. Seu legado é um vasto corpo de impressionantes pinturas detentoras de um dinamismo singular, cuja velocidade e padrão de gesto capturam e intrigam os olhos, instigando que estes completem a dança inerente a seus traços. Van Gogh transporta para a pintura a óleo as linhas de movimento do desenho – tracejadas, ondulantes, ásperas e ansiosas se vistas individualmente, mas compondo um belo tecido multicor que nos deixa entrever algo da vida que habitava ao redor e dentro do artista.

É incerto se nessa próxima mostra no CCBB veremos mais de van Gogh do que outros de seus contemporâneos, como havia sido anunciado anteriormente. É provável que a curadoria esteja novamente nas mãos do Musée d’Orsay, em Paris, que possui um dos acervos mais importantes de obras pós-impressionistas, mas ainda não se sabe as que de fato farão uma breve passagem pelo Brasil. O que se pode dizer certamente é que Vincent van Gogh, os artistas do pós-impressionismo e a mudança de foco que representam para a história da arte recente são marcos importantes para reflexões sobre o papel da autoria, a efemeridade do cotidiano e os mecanismos que constituem a arte.

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Links Externos

Em português:

Notícia da exposição no site da Folha de S. Paulo (somente para assinantes).
Impressionismo: Paris e a Modernidade, mostra feita pelo CCBB em 2012.
O Pintor da Vida Moderna, de Charles Baudelaire (PDF).

Em inglês:

The Van Gogh Museum, Amsterdam.
Musée d’Orsay, a casa das obras que virão até o CCBB.

Foto da capa: A Noite Estrelada, Vincent van Gogh, 1889. Museum of Modern Art, Nova York.

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