Black mirror: deliciosamente perturbador

Por Rodrigo Inácio Ribeiro Sá Menezes

A arte é uma promessa de felicidade.
(Stendhal)

Things are going to slide in all directions
There won’t be nothing
nothing you can measure anymore
The blizzard of the world
has crossed the threshold
and it has overturned
the order of the soul
(Leonard Cohen, “The future”)

O oximoro não é gratuito; a julgar pela série de TV Black Mirror, do britânico Charlie Brooker, o que o futuro nos reserva é assustador e, por isso mesmo, excitante.

O que estamos fazendo? Do que somos capazes, enquanto civilização, enquanto humanidade? De que somos, aliás, incapazes? Para onde estamos caminhando? É preciso pensar seriamente o que podemos fazer, e a conotação do verbo aqui não é exatamente positiva.

Sou um grande entusiasta da série britânica Black mirror, desde que a descobri há alguns anos. Ponho-me a escrever sobre ela sem ter sequer passado do segundo episódio da terceira temporada, recém-lançada. É o tipo de coisa que pode ser justamente apreciada sem mesmo ter chegado ao final (total de 6 episódios). Até porque, diferentemente das grande maioria das séries televisivas, não há continuidade narrativa entre os episódios, que começam e terminam neles mesmos, independentes um do outro (o que não impede que haja conexões subjacentes entre eles), como se fossem fragmentos, fotografias ou radiografias, recortadas e pintadas em cores sombrias, de aspectos essenciais da nossa realidade contemporânea. Eu não esperava ser convencido, tão prontamente, de que algo poderia superar as duas temporadas originais.

A série é um conjunto de narrativas separadas em que se explora – com uma imaginação terrível – os aspectos mais sombrios – degradantes, mórbidos – da tecnologia que se instala cada vez mais intensivamente em nossas vidas. Cada episódio se dedica a problematizar, projetando-o no futuro, um aspecto determinado dos diferentes tipos de tecnologia que constituem o mundo atual: a hiperconectividade móvel por meio dos smartphones, a obsessão pelo registro audiovisual de tudo e qualquer coisa (com as câmeras digitais embutidas nos mesmos smartphones), inclusive do mais banal dos acontecimentos, a cultura do selfie, a solidão ávida de “curtidas” das redes sociais, os reality shows (“Big Brothers”), mas também a inteligência artificial, a robótica e a criogenia, a interpenetração entre o real e o virtual entre outras premissas temáticas a partir das quais se desenvolve cada estória.

Diferentemente dos demais seres, o ser humano parece ter uma tendência progressiva à complexidade e à complicação. É esta característica que faria dele o “animal indireto”, conforme o definiu o filósofo romeno Emil Cioran. Seria isto o que justificaria a beleza trágica de Black mirror. É quando as coisas começam a se complicar que elas começam a ficar realmente interessantes. Não se trata de mera distopia ou profecia apocalíptica milenarista. Também não se trata de retomar a contenda  entre “apocalípticos” e “integrados”, mas de lançar um olhar direto e agudo no nosso mundo atual, para alcançar sobre ele uma uma visão de conjunto (do grego synopsis, e não por acaso os episódios de Black mirror  são como os evangelhos sinópticos, um complementando o outro). Só assim poderemos enxergá-lo, e enxergar a nós mesmos, por um novo prisma, com uma sensibilidade renovada, análogos à percepção na convalescença.

Black Mirror
Temporada 3, episódio 1

Trata-se, então, de (re)pensar a presença e o papel da hodierna tecnologia em nossas vidas, na qual ela se prolifera numa velocidade que não somos capazes de acompanhar, em nossa arrastada duração humana, em nossa temporalidade demasiado humana. É a perspectiva da ultrapassagem do humano pelo tecnológico, de onde o risco de reificação, alienação aguda, embrutecimento e desumanização. A tecnologia é ambivalente como a noção arcaica de phármakon: pode ajudar ou atrapalhar, ser solução ou problema, remédio ou veneno; a questão é sabermos se somos capazes, e também se estamos dispostos a isto, de dominá-la com responsabilidade e voltá-la em nosso real benefício, tanto quanto possível, tanto quanto necessário. Dito isso, o mérito de Black mirror é o de nos alertar para o risco de que as coisas que nós inventamos, enquanto espécie engenhosa e titânica, escapem ao nosso controle, atrapalhando a vida mais do que ajudando-a, colocando-se contra nós, entre nós e nós mesmos. Esteticamente, enquanto expressão artística, o seu mérito é utilizar a tecnologia (no caso, o aparato audiovisual cinematográfico) para mostrar as possibilidades de a tecnologia ser-nos nociva, é fazer-nos refletir a nós mesmos enquanto animais tecnicamente sofisticados e avançados, a própria tecnologia refletindo-se no espelho. Nenhuma aplicação da tecnologia mais benéfica, mais filantrópica no melhor sentido do termo (em nome da arte), do que uma produção como esta, com todos os seus recursos digitais e efeitos especiais, no sentido do que afirma o teórico norte-americano Fredric Jameson:

Mas o que de fato estes filmes nos dão a consumir não são aqueles prognósticos irrisórios e boletins meteorológicos distópicos, mas antes a alta tecnologia nela mesma e os seus próprios efeitos especiais. J. G. Ballard, ele mesmo um dos maiores distopistas pós-contemporâneos, encontrou uma formulação impressionante para tais projeções estéticas: elas alcançaram, ele nos diz, um nível de tecnologia avançada o suficiente para retratar a avançada tecnologia em declínio. A verdadeira alta tecnologia significa alcançar a capacidade de mostrar a historicidade do próprio high tech: Wesen ist was gewesen ist (negação é determinação); não se pode dizer o que uma coisa é até que ela se torne alguma coisa outra. […] Os “efeitos especiais” são aqui, assim, uma espécie de caricatura crua e emblemática da lógica mais profunda de toda produção de imagem contemporânea, em que se torna extremamente sutil a diferenciação entre a nossa atenção ao conteúdo e a nossa apreciação da forma. (JAMESON, F. Pós-modernismo: a lógica cultural do capitalismo tardio)

Após McLuhan (“o meio é a mensagem”), em um mundo fragmentário e fragmentado como o nosso, mundo de imagens que se multiplicam ao infinito, enquanto nós nos apagamos em meio a elas, já não se pode dissociar forma e conteúdo, dicotomia ultrapassada e inoperante no estado atual de coisas em que nos encontramos. Black mirror nos faz vislumbrar a irreversível e progressiva confusão entre ambas (processo inseparável do avanço tecnológico inerente ao progresso da civilização). Dialogando com Jameson, diríamos que é impossível separar a atenção ao conteúdo comunicado pela série e a apreciação formal (estética) que se tem dela. No melhor espírito baudelairiano, ela nos faz contemplar, condensados, contrastados, o belo e o terrível, o efêmero e o perene, o ser e o nada.

A problemática explorada na série não poderia deixar de nos remeter também a autores como Günther Anders, que se debruçou sobre a relação entre técnica e violência e o que ele chama de “vergonha prometeica”, e o cientista político italiano Giovanni Sartori, que cunhou o conceito de homo videns para descrever o culto quase religioso à imagem numa sociedade de consumo teledirigida. Aqui, parece ser o caso de um homo invidens, de uma criatura que se terá tornado irreconhecível a si mesma, inseparável e indistinguível de sua própria técnica. Em Black mirror, o homem sucumbe ao seu próprio gênio técnico, ao seu caráter demiúrgico. É apenas tendo ficado cego, a exemplo do adivinho Tirésias, que ele poderá então começar a ver, ou recuperar certa “visão”. Num cenário como esse, é preciso agir contra a inércia da percepção característica de uma época marcada pela repetição indiferente de imagens vazias. As análises de Baudrillard sobre a sociedade do simulacro também é muito bem-vinda (aliás, Matrix é quase infantil, de uma puerilidade reprovável, ao lado da série de Charlie Brooker).

Terminei de assistir os dois primeiros episódios da nova temporada com os olhos vidrados na tela, crispado na beira da cadeira, horrorizado, extasiado, em lágrimas de uma estranha alegria, alegria esta provocada pelo mais refinado estado da arte. Esforço-me agora para não ceder à tentação de assistir aos demais episódios numa sentada só, tendo assim o prazer e o desprazer de terminar a leitura. Ainda mais do que antes, o novo Black mirror é deliciosamente perturbador: um bálsamo para o espírito, uma experiência estética turbulenta e gratificante, em todo caso, muito mais do que simples “entretenimento”. Black Mirror é a definição mesma da katarsis trágica dos Antigos, esta forma de terapia purgativa por meio da arte, phármakon doloroso, porém necessário – em todo caso, dotado de uma estranha beleza que redime e liberta.

Ficção científica, dizer-se-ia, mas Black mirror (cujo título é de uma profundidade simbólica primorosa) é muito mais do que isso, é muito outro: nos devolve a uma imagem de nós mesmos que se faz familiar por sua própria estranheza. Uma série profundamente filosófica, enfim, se a filosofia consiste em questionar e criticar, refletir e elucidar o presente. Diria mesmo que chega a tocar a metafísica, enquanto racionalidade e discursividade que busca transcender o imediato: o que somos enquanto espécie, enquanto civilização? Qual é a nossa natureza? Seria ela fundamentalmente técnica, por uma espécie de vocação humana ao desastre? Para onde estamos nos levando? “O futuro é brilhante”, eis a resposta irônica de Black mirror.