Ai, ai! Brasilia, tu és uma ilha da fantasia!

1. Estive em Brasilia após décadas. Fui primeiro como turista e só agora voltei a trabalho. A distância temporal me fez ver coisas muito novas, e a postura de não-turista coisas intrigantes. Nada boas. Vejamos. Em Brasilia – onde está o núcleo do poder, digamos – não se passeia, usa-se táxis, carros, ônibus. Avenidas e mais avenidas distanciam os homens que se encontram só no trabalho, nos cafés, nos shoppings, nos hotéis. Não há borburinho nas ruas (que ruas?) ou calçadas (que calçadas?). Até aí, supera-se.

2. Com o olhar de alguém que chega em Saturno e passa pelos anéis, esgazeantes, eu conheci como se trabalha dentro dos grandes edifícios públicos. Uniformes, ar condicionado, café, reuniões, ternos, retóricas, uniformes, ar condicionado, café, reuniões…Lá fora… bom, lá fora não sei. Horas e horas de reuniões, bilhões de palavras, peitos estufados para nova enxurrada de sentenças, retóricas variadas, como se as pessoas cumprissem um papel num grande palco: conversar sobre ‘x’, expor  ‘x’, ouvir ‘x’, discutir ‘x’, voltar depois do café, falar mais, discutir mais, ouvir mais, ir ao almoço, táxi, comida, táxi, ar condicionado…. e o dia passa,, precisa mais um dia… La fora? Há “lá fora”?

3. Tem que haver lá fora. Afinal, tudo isto, desde homens, reuniões, prédios, uniformes, ar condicionado… seria – condicional – para altas resoluções que caem diretamente sobre nós: abra as asas sobre nós, Brasilia! Mas, há algo espantoso: no ir de vir do realengo oficial, as posturas dos homens e mulheres se modificam, os rostos vão adotando novas expressões, a língua vai ficando tagarela, a retórica aumenta, as horas correm e sente-se profundamente que se cumpre algum dever, e bem, a profunda impressão de um trabalho exaustivo. No entanto, se pensarmos bem, só um resto de uma totalidade, 1/8 do trabalho poderia ser arrematado em Brasilia, nesses prédios organizados para reuniões e computadores. O todo pode ser pensado e divulgado para discussão, apanhado, organizado, repensado e decidido em três horas. Não é isso que se faz de fato para decidir? Chame alguém para uma viagem, para uma jantar, chame para o corredor, num cantinho e resolva. Depois… vamos à luta! (a luta do café, ar condicionado, reuniões, retórica..) .

4. Será que Brasilia cria nas pessoas uma mudança de estado mental, dado seu modo de ser tão oficial (!), tão institucional(! ), criando a ilusão de que trabalham e “por demais!”? Sim. O que há no ar de Brasilia, afora a secura? O oficialismo engana homens sérios e não sérios, políticos e não políticos, bem-intencionados e mal-intencionados. Todos sentem que trabalham. Realmente, há um rosto novo que se cola à velha alma de cada um assim que se pisa num prédio oficial para trabalhar; transforma cada um de modo a ter outro modo de ser: todos ficam unos, mesmos, permanentes, perfeitos, de infinitos labores. Desculpem o uso de tantas categorias, mas o que se percebe num prédio oficial – brasiliense, mas não só, acho eu -é a crença de todos são amigos, sorridentes, iguais e fraternos – não o são – porque estão dispostíssimos a resolver as coisas públicas da melhor forma possível. É uma crença, é uma crença férrea. Claro que se v vai a um desses lugare e ali não trabalha – mas precisa de algo como cidadão - v é um estranho ser no ninho e não será bem tratado. Ora, esse ninho não é seu,  chopim!!!

5.   Não se pode culpar tais personas. Afinal, o excesso de oficialismo, a geografia brasiliense, o ar condicionado, os cafés, o trânsito de homens e mulheres todos iguais no modo de vestir (brasiliense oficialista) faz, realmente, acreditar que todos são alegres servidores cumpridores do dever, em busca da felicidade dos demais… e da própria.

4. O que ocorre em Brasilia é que não há vida, há representações. Mas todos são bons, e ninguém deve achar razoável o que eu estou dizendo. Só os ETs percebem? Não sei. Os homens vestem ternos, usam maletas iguais de couro com a marca do fabricante, em geral têm larga pança, sorriso confiante, postura vitoriosa;, bebem muito alcool além do café; as mulheres vestem roupas incômodas ou terninhos masculinos, saltos imensos, muitas jóias, cabelos para o vermelho ou com muitas luzes, têm sorriso de esposas com bons maridos ($$) ou são executivas tremendonas. Nas cidades satélites deve estar a diferença, a vida.

5. Exagero? Sei não… Minha certeza disso tudo veio depois, no aeroporto, de volta para SP. Muitos estavam de volta. Muitos quem? Os manequins que eu vi por todos os lugares por onde andei e onde havia ar condicionado, cafés, uniformes… estavam mesclados todos: políticos, negociantes, negociadores, industriais, diretores esposas, advogados e advogadas (montes!), feixe interessante. Difícil  discernir (se v não os conhece) os “politicos”entre executivos de indústrias, diretores de banco, lobistas.

6. Restava um novo impacto. Até o saguão de saída  em SPaulo segui os manequins. Na fila imensa de táxis e carros particulares que esperavam os viajores dos vôos, as máscaras iam caindo… sem que os próprios percebessem. Nova postura, sem sorrisos, sem vitórias, todos arqueados, olhos baixos. As mulheres já não conseguiam equilibrar-se nos altos saltos, blusas amassadas. Acabou. Vão descansar em suas casas. O que são, afinal? Dize-me onde andas e te direi que máscara terás.  

Quem persegue duas lebre não pega nenhuma. (antigo provérbio latino)

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