1. Depois de longo, e em andamento, calor, volto a escrever,não sem dificuldades. A cabeça não anda, a metafísica é impossível a 30 graus. Férias difíceis em que experimentei algo interassante: ficar sem fazer nada. É um fazer estranho! Entre culpabilidades, sensações de indolência, questionamento sobre possíveis deprês… bom, consegui passar janeiro- fevereiro. E volto ainda sem vigor, pois me acostumei a não fazer nada. E a vida está aí, não é? Mas também estava aqui, comigo em quietude.
2. Aproveitei para rever alguns filmes do mestre Kurosawa e, espanto, alguns antigos, branco e preto, que não havia visto e que faço questão de indicar a vocês. Trata-se de um Kurosawa ainda jovem, que usa e abusa do seu ator preferido, Toshiro Mifune, jovenzinho. Ali já estão os valores básicos dos filmes do mestre japones: os valores tradicionais do Japão contra os valores ocidentais do Japão.
3. Não se trata de falar em “conservadorismo” de Kurosawa ao preferir, claramente, os valores japoneses. Talvez, se os ocidentais (técnicos e capitalistas, destruidores da história janpones) tivessem valores a adotar, quem sabe Kurosawa não tivesse tanta força ao mostrar o que é a dignidade de um homem que aprendeu certas regras sobre o Bem e Mal e vive embates nos quais elas estão dúbias ou não são interessantes para a vida japonesa das cidades.
4.Cito dois filmes: Céu e Inferno e Duelo Silencioso. O primeiro trata de um executivo japones e uma grande indústria de sapatos, sua diretoria, valores novos e antigos e… um sequestro que faz emergir tudo o que se tem de mais íntimo sobre nossas próprias escolhas e ações. O segundo, no mesmo diapasão, aproveita algo terrível que ocorreu na vida de um médico dedicado para fazer aflorar também todas as dubiedades que os homens podem ter com relação aos outros.
5. Espantoso para os ocidentais assistir tais filmes. Não há samurais em jogo, daí que os intérpretes são “gente como a gente” e a forte dramaticidade de um Dodeskaden, por exemplo (filme posterior), não aparece, apeasr de haver dramaticidade no dois filmes citados. Mesmo o belo Ran – que colocamos devidamente na cronologia medieval do Japão em nosso imaginário -, com valores em embate, não chega a nós como chegam esses dois filmes: eles são pertinenetes ao nosso dia-a-dia, porém … Kurosawa não é referência para nosso dia-a-dia. Sua maestria no roteiro e no filmar transcende o cotidiano.
6. Vejam e me digam o que fariam no lugar dos personagens dessas duas histórias. E depois… conversamos. Ai, como é difícil ser moderno!Ter que escolher e não acreditar mais no Destino!
“Os raios atingem os cumes mais altos.” < Horácio, Odes, 2.10>
