Existe democracia no Brasil?

Toda vez que um político desonesto é surpreendido em ligações telefônicas, trocas de bilhetes, imagens flagradas por câmeras etc., surge alguém para dizer que a corrupção vem à tona porque vivemos num Estado democrático. Segundo esses otimistas, isso deve ao amadurecimento da democracia brasileira e ao bom funcionamento das instituições, capazes de apanhar maus políticos.

Acredito, contudo, que o termo “democracia” está de tal modo incorporado ao nosso vocabulário, como se o seu sentido fosse evidente, sendo desnecessária a pergunta sobre o seu real significado para nós. Se voltarmos à atenção para a eleição de vereadores e prefeitos – para ficarmos nos cargos menores, mas não menos importantes -, encontraremos um sentido à nossa “democracia”.

Uma rápida conversa que tive com uma jovem que trabalhou para um candidato a vereador de Porto Velho, em Rondônia, pode anos judar.  Ele, dono de um colégio da cidade, amigo do prefeito e ex-secretário de obras públicas da cidade (não sei por que esse cargo é tão venerado), com livre trânsito entre empresários e políticos, conseguiu bons incentivos para a campanha eleitoral. A pessoa com quem conversei foi secretária/assistente do político, responsável por anotar os pedidos dos eleitores, já que é ilegal ver o candidato trocando e comprando votos. Quando as pessoas aproximavam-se dele para pedir algo, surgia um assessor (ou ela mesma) para dizer ao eleitor que fizesse o pedido, que ela encaminharia ao ex-secretário. O trabalho não era tão difícil. Entretanto, a assessora queixou-se de outra atribuição. Tinha de visitar várias casas de eleitores e, dependendo da hora, almoçava, junto com o candidato e a equipe que o acompanhava, 4, 5, 6 vezes no dia.

Negar um prato, lanche ou suco saõ sinais, para o eleitor humilde, de rejeição ou de pouco caso, impressão que o candidato não queria deixar. Ele, então, exigia que todos comessem o que era oferecido, a fim de evitar constrangimentos, e que ela em particular não descuidasse de registrar os pedidos, um por um. Segundo a assessora, o que mais se pedia era emprego, remédio, dentadura, chinelos e – acreditem! – carro. Perguntei se todos os pedidos eram atendidos: respondeu-me que alguns sim, outros ficaram para depois do candidato eleito.

O ex-secretário foi eleito mas, antes mesmo de assumir o cargo, cassado. Uma investigação conduzida pelo ministério público apontou irregularidades na prestação de contas da campanha e, também, o acusou de compra de votos.

Este breve relato não é revelador e, por isso mesmo, traz o sentido da democracia nestes trópicos. Contra os otimistas, entendo que essa é a maneira por excelência de se fazer política no Brasil. E, se estiver certo, o que quer que exista aqui ou é contrário à palavra “democracia” ou tem outro nome, que ainda não inventamos.

About the Author

Graduado e Mestrando em Filosofia pela PUC-SP, é professor de Filosofia na rede de ensino do Estado de São Paulo.