Li uma passagem de um comentador (na verdade, ele apresenta dois textos de Blaise Pascal em uma edição de bolso francesa) chamado François Taillandier. O texto, curto, mas com sacadas que fiquei embasbacado. Eis uma delas:
“Podeis ignorar a louca visão cristã de um Pascal, este vesânio de abjeção, mas isto não fará de vós Sade ou Nietzsche. Isto fará de vós um simples imbecil”. (TAILLANDIER, François. Présentation. In: PASCAL, Blaise. “Bienheureux ceus qui pleurent”. Prière pour demander à Dieu Le bon usage des maladies. Paris: Bayard, 2004, p. 11).
Passagem interessante, pois muitos que criticam Pascal como um cristão culpado, ao fazê-la pensam: “Critiquei Pascal, agora sou Nietzsche!”. É fato que, muitos que criticam o cristianismo como coisa de gente pobre, culpada e triste, pensam que estão no mesmo patamar de autores como Sade, Marx, Nietzsche, Freud, e outros. É quase uma equação. Sou promíscuo, logo, sou sadiano! Rsrs. Coitado de Sade se escutasse isso! Rolaria no túmulo! O problema é que fazem a crítica e se entregam à crença moderna de que no final vamos vencer, tudo vai dar certo, ou pelo menos boa parte do que desejo: o que é totalmente patético tanto para Pascal, como para autores como Sade, Marx, Nietzsche, Freud. O libertino, que diz não se submeter a nenhuma crença, pensa que é chegado o fim da conformidade (resignação) com a existência trágica, cabe agora realizar todas as “possibilidades” da vida…… Quase todos estão na crença da vida como um horizonte de possibilidades “bem sucedidas”, o que empiricamente é falso. (não sou adorador de “fatos” empíricos, mas às vezes aquilatar alguns esclarece a discussão). Mais vale manter a tonicidade e corajosamente ser dogmático em algumas coisas (mesmo sabendo que às vezes cambaleamos, ficamos tontos, caímos, mas não mentimos), a saber:
1 – Trabalharemos durante toda a vida como bois em um curral.
2 – Nunca sairemos de nosso buraco, para quem pensa que irá viajar para muito longe o tempo todo.
3 – Nossa vida sexual não será uma fonte cintilante de sucesso o tempo todo: muita propaganda em cima disto.
4 – Caso encontremos a pessoa que amamos, iniciaremos, nesta relação, uma fonte inesgotável de problemas. O Homem é o único ser que conhece a armadilha, entertanto, consciente da mesmo, está condenado a entrar nela. Alguém grita da sala: “Ficarei só!”. Conhecerá a solidão, os sábados choramingantes, as semanas sem conversar, a doença desacompanhada, as pizzas não repartidas, o arroz que nunca acaba. Bom, podemos experimentar tudo isso mesmo na vida acompanhada.
5 – Viveremos sob o olhar do vizinho e da família: o “Homem Perfeito” seria aquele que consegue viver sem se preocupar com que o outro está pensando dele…quando alguém encontrar um por aí tira uma foto.
6 – Sofreremos muita dor: talvez perderemos uma perna, ficaremos cegos, derrame, infarto, depressão crônica, câncer, atropelamento, acidente de carro, avião, moto, elevador, bicicleta ou, como dirá o velho e bom Pascal, teremos nossa vida terminada pela ação de uma minúscula pedra na uretra.
7 – Seremos pecadores sempre…isso para quem ainda se preocupa em não pecar. Ainda há muito a dizer sobre isso depois que a psicologia é criada para dizer: “-Durma bem, isso não é pecado”/ “–Mas eu matei minha mãe, triturei, enterrei na sala da minha casa e cuspi em cima?”/ “-E como foi a experiência?”….é isso que escuto no bar: nada é está errado, não há pecado. E no bar encontramos o “espírito do tempo” que invade a alma das pessoas e as determina durante toda vida.
8 – Partiremos para a guerra, mas já perdemos. Quem acha que irá ganhar é um bobo de 30 anos que usa bermuda.
9 – Não seremos felizes…sem comentários…tem gente que insiste nesta história de felicidade…Mas vale a pena escutar tais pessoas como se escuta um morto no cemitério.
10 – Vamos morrer, e para “A Morte” não há feriado. Ela trabalha o ano todo, o dia inteiro: Ela deveria ser um exemplo neste cursos de “gestão de qualquer porcaria”. Há um exemplo maior do que “A Morte” de trabalho duro e eficaz, que não dorme no ponto e não esquece ninguém? Se andamos acompanhados não há dúvida que é com Ela, esta doce Senhora que “acalma a dissensão irreconciliável”, como dirá Pascal em seu texto Prière pour demander à Dieu Le bon usage des maladies, entre o corpo e a alma.
Andrei Venturini Martins

A morte como paradigma de competência acaba por nos presentear, talvez, com a nossa única certeza.
Mas, ainda assim, em nossa época, as pessoas insistem em viver como se fossem eternas, fazendo da ilusão caminho seguro para lugar nenhum.
Identifiquei-me com o “bobo de 30 anos que usa bermuda”, mas, ao contrário dele, tenho consciência que a guerra está perdida – já não tenho a ilusão de atingir a felicidade; por hora satisfaço-me com possibilidade de vivenciar momentos felizes e, admito, ocupo-me em tentar multiplicar o seu número de ocorrências em minha existência.
E se tal certeza engendra a agonia, pergunto-me: o que mais nos restaria por opção?