As Intermitências da Morte – José Saramago

É comum encontrarmos relatos na História da Humanidade que denotam a angústia das pessoas face à morte ou à certeza de que dela participarão. Talvez, por conta da apreensão que o término da existência humana nos impõe, nos moldes como a conhecemos fisicamente, é que a morte tenha sido tratada como um mal, algo cuja própria idéia devesse ser combatida e, não raramente, o desejo de uma continuidade ininterrupta da condição de estarmos vivos, ou seja, o anseio pela vida eterna terrena tenha sido manifestado.

Em “As Intermitências da Morte”, Saramago nos carrega para um determinado país, onde, no primeiro minuto do dia de Ano Novo, os moradores do lugar percebem que a morte não havia se manifestado como de costume, que as pessoas simplesmente deixaram de morrer. Um representante de uma agência de enterros expressava sua insatisfação: “[...] pelos vistos ninguém parece estar disposto a morrer no primeiro dia do ano [...]”. (p. 13).

Na medida em que a percepção se confirmava na propagação do boato, as pessoas daquele país sentiam-se privilegiadas, enchendo-se de um fervor patriótico justificado em sua escolha para não mais perecerem. Porém, com a experiência e a reflexão sobre ela permitidas pelo tempo que passava e pelos problemas que começavam a se apresentar, o que num primeiro instante fora entusiasmo pintado nas cores da bandeira, transformou-se em condenação à vivência de situações cujos malefícios se incrementavam na proporção em que não mais se morria: até mesmo o principal dito em um ano que se inicia estampado como manchete em um dos jornais, “[...] Ano Novo, Vida Nova [...]”, passou a soar ironicamente perante o desespero que se alastrava em meio aos órgãos públicos, às empresas privadas e à população em geral. (Cf. p. 23).

O Governo não sabia como lidar com uma situação que lhe apresentava um problema inédito sem correr o risco de perder a popularidade como efeito de suas medidas. Empresas cujos ramos de atividade diziam respeito à morte, como funerárias e seguradoras, viram-se à beira da falência e forçaram o governo a se posicionar favoravelmente a uma solução paliativa: “[...] que o governo venha a tornar obrigatório o enterramento ou a incineração de todos os animais domésticos que venham a defuntar [...]”. (p. 26). A Igreja se viu ameaçada, uma vez que sem que as pessoas morressem não poderiam ressuscitar para a vida eterna, e sem oferecer o seu principal produto – a ressurreição – a instituição não teria sustentação lógica: “[...] as religiões, todas elas, por mais voltas que lhe dermos, não têm outra justificação para existir que não seja a morte [...]”. (p. 36).

A ausência da morte entre os homens não teria trazido apenas o caos econômico para o referido país, a moralidade de sua população foi posta à prova quando, tomadas de sentimentos contraditórios, as pessoas que inicialmente comemoravam a permanência de parentes queridos consigo, passaram a desejar alguma maneira de se livrarem dos transtornos provocados por um moribundo permanente. Casas de repouso ficaram cheias: tratava-se da terceirização da responsabilidade no apogeu de sua intensidade!

E como em todo contexto social no qual as soluções não são apresentadas por quem tem o dever, elas emanaram da organização daqueles que viram no problema a possibilidade de ganhos com sua resolução prática, mesmo que ao custo do regresso moral: surgia a máphia, que se autografava com ph “[...] para nos distinguirmos da outra, da clássica [...]”, e gerenciava o serviço de fazer morrer fora das fronteiras da nação, já que, benção ou maldição, o evento sobrenatural só se dava dentro dos limites geográficos do país. (Cf. p. 50). Da pressão exercida pelas nações limítrofes, insatisfeitas com o uso arbitrário que se fazia do seu território como sepulturas, unida à demagogia dos estadistas que prometeram aos governos vizinhos resolver a questão, mas não cogitavam tomar qualquer medida antipopular, ganhavam força as ações “maphiosas” que se fundamentavam em um acordo secreto com os dirigentes locais que as fingiam combater, livrando-se, perante os vizinhos, da acusação de culpa sobre o que continuava a ocorrer.

Enquanto no mundo dos vivos os vícios das relações humanas emergiam com força proporcional à gravidade do problema vivenciado, a figura da morte nos é oferecida por Saramago como personagem a protagonizar toda a segunda metade da obra. Após sete meses de protesto, satisfeita com os resultados obtidos, resolveu a morte voltar à normalidade de suas ações, implementando, por novidade, o envio de uma carta que notificava a pessoa, sete dias antes, da data de sua morte.

Assim, encontramos a morte na fiel companhia de sua gadanha executando o trabalho de envelopar os comunicados e os encaminhar aos destinatários, até que “[...] aconteceu que uma carta cor violeta foi devolvida à procedência [...]”, reaparecendo sobre a escrivaninha de onde a morte a enviara. (Cf. p. 135). Após outras duas tentativas sem sucesso de envio, de verificar em seus arquivos que as informações sobre o destinatário eram procedentes e de consultar os manuais que, seguindo suas orientações, ela jamais havia falhado até então, a morte incumbe à gadanha das postagens das fúnebres correspondências futuras, para, assumindo uma imagem de mulher, conhecer aquele que, inexplicavelmente, fugia-lhe ao comando.

Deparou-se, então, a morte com um músico violoncelista de cinquenta anos “[...] um idiota inocente que continua a viver sem que lhe passe pela cabeça que já deveria estar morto [...]”, que vivia em um apartamento com um cão de estimação e se apresentava em concerto nos teatros da cidade. (Cf. p. 147). Após contemplar o sono do violoncelista na tranqüilidade do seu lar, sem se fazer notar, a morte o contata em duas oportunidades futuras, ambas ao término de apresentações musicais, onde, enigmaticamente, troca algumas palavras com o homem tentando compreendê-lo, saber ao certo de quem se trata, que poderes ele poderia ter para lhe escapar à vontade irrevogável, mas, sobretudo, tencionando entregar-lhe a carta. O homem, que já se encontrava enamorado da bela figura feminina assumida pela morte e estava tão fascinado quanto confuso, acabou por encantar seu algoz com sua arte ao tocar para ele em sua casa. Após momentos de maior intimidade, arrependida, a morte queima a carta que portava, voltando aos braços do músico para neles adormecer: “[...] No dia seguinte ninguém morreu [...]”. (p. 207).

Assim como Erasmo de Rotterdam (1466 – 1536), em seu “Elogio à Loucura”, publicado no longínquo ano de 1509, faz-nos perceber o valor agregado ao estágio de suspensão momentânea de razão, sem o qual não suportaríamos muito do que nos rodeia, José Saramago, em “As Intermitências da Morte”, faz justiça ao inevitável, expondo a necessidade do homem de ter sua vida findada em um determinado momento, sob o risco de sofrer todas as consequências de uma existência que teria prolongados os males que lhe são inerentes, além da impossibilidade prática da perpetuação da vida na Terra. Utilizando o recurso de não nomear pessoas nem lugares, o texto de Saramago ganha um ar de atemporalidade e universalidade, características que, em sendo a morte o tema principal, instrumentalizam-nos a reflexão.

Seria a Arte capaz de imortalizar, interrompendo a ação da Morte?

SARAMAGO, José. “As Intermitências da Morte”. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.

Luciano Alberto Ventura

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