É comum encontrarmos relatos na História da Humanidade que denotam a angústia das pessoas face à morte ou à certeza de que dela participarão. Talvez, por conta da apreensão que o término da existência humana nos impõe, nos moldes como a conhecemos fisicamente, é que a morte tenha sido tratada como um mal, algo cuja própria idéia devesse ser combatida e, não raramente, o desejo de uma continuidade ininterrupta da condição de estarmos vivos, ou seja, o anseio pela vida eterna terrena tenha sido manifestado.
Em “As Intermitências da Morte”, Saramago nos carrega para um determinado país, onde, no primeiro minuto do dia de Ano Novo, os moradores do lugar percebem que a morte não havia se manifestado como de costume, que as pessoas simplesmente deixaram de morrer. Um representante de uma agência de enterros expressava sua insatisfação: “[...] pelos vistos ninguém parece estar disposto a morrer no primeiro dia do ano [...]”. (p. 13).
Na medida em que a percepção se confirmava na propagação do boato, as pessoas daquele país sentiam-se privilegiadas, enchendo-se de um fervor patriótico justificado em sua escolha para não mais perecerem. Porém, com a experiência e a reflexão sobre ela permitidas pelo tempo que passava e pelos problemas que começavam a se apresentar, o que num primeiro instante fora entusiasmo pintado nas cores da bandeira, transformou-se em condenação à vivência de situações cujos malefícios se incrementavam na proporção em que não mais se morria: até mesmo o principal dito em um ano que se inicia estampado como manchete em um dos jornais, “[...] Ano Novo, Vida Nova [...]”, passou a soar ironicamente perante o desespero que se alastrava em meio aos órgãos públicos, às empresas privadas e à população em geral. (Cf. p. 23).
O Governo não sabia como lidar com uma situação que lhe apresentava um problema inédito sem correr o risco de perder a popularidade como efeito de suas medidas. Empresas cujos ramos de atividade diziam respeito à morte, como funerárias e seguradoras, viram-se à beira da falência e forçaram o governo a se posicionar favoravelmente a uma solução paliativa: “[...] que o governo venha a tornar obrigatório o enterramento ou a incineração de todos os animais domésticos que venham a defuntar [...]”. (p. 26). A Igreja se viu ameaçada, uma vez que sem que as pessoas morressem não poderiam ressuscitar para a vida eterna, e sem oferecer o seu principal produto – a ressurreição – a instituição não teria sustentação lógica: “[...] as religiões, todas elas, por mais voltas que lhe dermos, não têm outra justificação para existir que não seja a morte [...]”. (p. 36).
A ausência da morte entre os homens não teria trazido apenas o caos econômico para o referido país, a moralidade de sua população foi posta à prova quando, tomadas de sentimentos contraditórios, as pessoas que inicialmente comemoravam a permanência de parentes queridos consigo, passaram a desejar alguma maneira de se livrarem dos transtornos provocados por um moribundo permanente. Casas de repouso ficaram cheias: tratava-se da terceirização da responsabilidade no apogeu de sua intensidade!
E como em todo contexto social no qual as soluções não são apresentadas por quem tem o dever, elas emanaram da organização daqueles que viram no problema a possibilidade de ganhos com sua resolução prática, mesmo que ao custo do regresso moral: surgia a máphia, que se autografava com ph “[...] para nos distinguirmos da outra, da clássica [...]”, e gerenciava o serviço de fazer morrer fora das fronteiras da nação, já que, benção ou maldição, o evento sobrenatural só se dava dentro dos limites geográficos do país. (Cf. p. 50). Da pressão exercida pelas nações limítrofes, insatisfeitas com o uso arbitrário que se fazia do seu território como sepulturas, unida à demagogia dos estadistas que prometeram aos governos vizinhos resolver a questão, mas não cogitavam tomar qualquer medida antipopular, ganhavam força as ações “maphiosas” que se fundamentavam em um acordo secreto com os dirigentes locais que as fingiam combater, livrando-se, perante os vizinhos, da acusação de culpa sobre o que continuava a ocorrer.
Enquanto no mundo dos vivos os vícios das relações humanas emergiam com força proporcional à gravidade do problema vivenciado, a figura da morte nos é oferecida por Saramago como personagem a protagonizar toda a segunda metade da obra. Após sete meses de protesto, satisfeita com os resultados obtidos, resolveu a morte voltar à normalidade de suas ações, implementando, por novidade, o envio de uma carta que notificava a pessoa, sete dias antes, da data de sua morte.
Assim, encontramos a morte na fiel companhia de sua gadanha executando o trabalho de envelopar os comunicados e os encaminhar aos destinatários, até que “[...] aconteceu que uma carta cor violeta foi devolvida à procedência [...]”, reaparecendo sobre a escrivaninha de onde a morte a enviara. (Cf. p. 135). Após outras duas tentativas sem sucesso de envio, de verificar em seus arquivos que as informações sobre o destinatário eram procedentes e de consultar os manuais que, seguindo suas orientações, ela jamais havia falhado até então, a morte incumbe à gadanha das postagens das fúnebres correspondências futuras, para, assumindo uma imagem de mulher, conhecer aquele que, inexplicavelmente, fugia-lhe ao comando.
Deparou-se, então, a morte com um músico violoncelista de cinquenta anos “[...] um idiota inocente que continua a viver sem que lhe passe pela cabeça que já deveria estar morto [...]”, que vivia em um apartamento com um cão de estimação e se apresentava em concerto nos teatros da cidade. (Cf. p. 147). Após contemplar o sono do violoncelista na tranqüilidade do seu lar, sem se fazer notar, a morte o contata em duas oportunidades futuras, ambas ao término de apresentações musicais, onde, enigmaticamente, troca algumas palavras com o homem tentando compreendê-lo, saber ao certo de quem se trata, que poderes ele poderia ter para lhe escapar à vontade irrevogável, mas, sobretudo, tencionando entregar-lhe a carta. O homem, que já se encontrava enamorado da bela figura feminina assumida pela morte e estava tão fascinado quanto confuso, acabou por encantar seu algoz com sua arte ao tocar para ele em sua casa. Após momentos de maior intimidade, arrependida, a morte queima a carta que portava, voltando aos braços do músico para neles adormecer: “[...] No dia seguinte ninguém morreu [...]”. (p. 207).
Assim como Erasmo de Rotterdam (1466 – 1536), em seu “Elogio à Loucura”, publicado no longínquo ano de 1509, faz-nos perceber o valor agregado ao estágio de suspensão momentânea de razão, sem o qual não suportaríamos muito do que nos rodeia, José Saramago, em “As Intermitências da Morte”, faz justiça ao inevitável, expondo a necessidade do homem de ter sua vida findada em um determinado momento, sob o risco de sofrer todas as consequências de uma existência que teria prolongados os males que lhe são inerentes, além da impossibilidade prática da perpetuação da vida na Terra. Utilizando o recurso de não nomear pessoas nem lugares, o texto de Saramago ganha um ar de atemporalidade e universalidade, características que, em sendo a morte o tema principal, instrumentalizam-nos a reflexão.
Seria a Arte capaz de imortalizar, interrompendo a ação da Morte?
SARAMAGO, José. “As Intermitências da Morte”. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.
Luciano Alberto Ventura


Parabéns Lú,
bela resenha!
Fiquei curioso pelo desenrolar detalhado dessa história…
Tudo indica que devo adquirir esse livro!
Abraço
Muito bom Luciano, um tema na qual não podemos esquivar-nos, pois estamos fadados a morte. Se freud estiver certo é o fim eterno(o nada), se Pascal estiver com a razão herdaremos a eterna vida. Abs.Lutero.
Segundo a minha humilde percepção, penso que a obra “As intermitências da morte” é um belo convite à reflexão do papel da morte nas nossas vidas. Aliás, Sócrates evidenciou a necessidade de se pensar filosoficamente a morte. Da mesma forma, Nietzsche pensou profundamente este assunto, embora não em consonância com Sócrates. Para Nietzsche, a forma como o cristão encarra a morte mortifica a própria vida. Assim, viver está vida em função de uma outra é condenar a si mesmo ao profundo vazio, ao nada absoluto. Segundo este filósofo é mais fácil aceitarmos as “verdades” confortáveis, ao invés da genuína verdade. A verdade da nossa finitude, da nossa degradação, ao invés de nos enganar ou nos torturar, nos transforma em pessoas mais fortes. Nenhuma verdade virá do céu para nos consolar! A morte pode não ser uma tragédia.
Parabéns pela resenha, pois ela é um contive à leitura da obra.
Olá, Fernando
Agradeço pela leitura do texto!
Fico feliz por suas palavras, afinal, creio que a principal função de uma resenha deva ser despertar o interesse para a leitura da obra principal.
Olá, Edirlei
Tem razão: trata-se da única certeza que temos, mas, ainda assim, as pessoas em nossa época parecem viver como se fossem eternas. Tocar no assunto morte de forma sóbria pode fomentar reflexões que nos ajudem a viver melhor. Obrigado pela participação!
Olá, Roberto
Realmente, a não ser no que respeita à fé, não temos como saber qual a realidade que sucede à morte. Procuro cogitar como hipóteses verdadeiras as duas possibilidades que você citou, mas, concordo contigo, o fundamental é não vivermos esta vida em função de uma outra que talvez aconteça, talvez não.
Muito boa sua resenha. Trecho da resenha que mais gostei “O homem, que já se encontrava enamorado da bela figura feminina assumida pela morte e estava tão fascinado quanto confuso, acabou por encantar seu algoz com sua arte ao tocar para ele em sua casa. Após momentos de maior intimidade, arrependida, a morte queima a carta que portava, voltando aos braços do músico para neles adormecer: “[...] No dia seguinte ninguém morreu [...]”. (p. 207)”
Olá, Elza
Agradeço pela leitura do texto!
Esta passagem por você citada tenta expressar a ideia a qual Saramago nos induz ao longo de algumas páginas no final da obra: a de que a força da Arte teria se sobreposto à da Morte quando esta, emocionalmente, rendera-se a aquela. Se trouxermos tal reflexão para o mundo real, talvez não seja um absurdo quando afirmada.
Ola Luciano…Parabens pelos otimos trabalhos que vem nos disponibilizando via net.
Sem sombra de duvida a obra de Saramago é um material que deve ser divulgado para que as pessoas tomem gosto por leituras diversificadas quanto a isto nao tenho duvidas e volto a parabenizá-lo…
Quanto ao tema, desde o inicio da “Historia” humana o homem vem buscando uma explicacao para o pos vida, varias religioes surgiram e diversas teorias acerca do assunto se fundaram nestas teorias. Recentemente li uma tese sobre as transformacoes funebres da cidade de Sao Paulo (1850-1860), PAGOTO, Amanda Aparecida. Do Ambito Sagrado da Igreja ao Cemiterio Publico, colecao teses e monografias vol. 7. Arquivo do Estado – Imprensa Oficial. Sap Paulo, 2004. Onde a autora traca um panorama acerca da transicao dos enterros intra muros da igreja catolica e a inalguracao dos cemiterios publicos do municipio de Sao Paulo, ela aborda o tema sobra uma perspectiva conflituosa religiao x ciencia, fe x medicina sanitarista mas principalmente o que vi foi deus x capitalismo, e todos sabemos quem ganha este braco de ferro. Cito esta tese somente para estruturar minha teoria de que a consepcao de morte varia em relaçao a cultura de que falamos mas nos dias atuais ela é norteada principalmente pelas necessidades do capitalismo, e em tempos anteriores pela casta dominante de cada regiao… Fica aqui a pergunta temos uma concepcao de morte, ou fomos forcados a absorver uma?
Olá, Alexandre
Primeiramente, muito obrigado por enriquecer este espaço com a sua participação.
Concordo contigo que, em sendo parte de um grupo, somos influenciados pelos comportamentos e concepções deste, chegando ao ponto de podermos erigir perguntas que coloquem em dúvida a validade daquilo a que nos estamos acostumados.
Também tenho consciência de que, dentro deste grupo, existem os que geram, ou fomentam, tais comportamentos e concepções visando à manutenção de sua posição privilegiada.
Mas, mesmo diante de toda esta subjetividade, das diferentes concepções sobre a morte que temos ou, como você bem coloca, compulsoriamente absorvemos, uma coisa nos parece inquestionável: chegará o dia em que não mais estaremos aqui.
E neste dia, não poderemos fazer o que havíamos deixado para depois nem mesmo desfrutar dos recursos que passamos a vida toda em privamentos para acumular.
Por isso acho válido pensarmos a morte. De maneira sóbria, claro, como percepção objetiva do fato em si, como possibilidades subjetivas do seu momento posterior, mas, sobretudo, para construirmos uma maneira de melhor viver antes que ela aconteça, revisando valores sobre os quais nos apoiamos e construímos nossas relações cotidianas.
No que respeita às religiões, minha visão histórica da coisa concorda inteiramente contigo.
Forte abraço e obrigado também pela indicação da tese.
Parabéns, senhor Luciano!
Tenho a obrigação de comentar, vou ali sorver a morte e volto já, já (se eu não voltar…é que ela me sorveu)
marco antonio
Olá, Marco
Obrigado pela leitura!
Espero que ainda demore muito tempo para que “ela” ganhe o braço de ferro. Mas, como o texto nos permite concluir, penso ser benéfico termos em mente que um dia ela ganhará.
Olá Luciano:
Gostaria de parabenizá-lo por mais esta excelente resenha.
Sei que sou suspeita em falar do autor pois tornou-se um dos que atualmente mais aprecio.
O livro é belíssimo e Saramago constrói uma metáfora sobre a necessidade da morte como elemento integrado à vida.
O romance é uma constatação de que afirmar a vida é,necessariamente, integrá-la à morte enquanto é também recusá-la – de modo paradoxal e sadio ao mesmo tempo – porquanto a recusa significa gostar de viver.
Sucesso sempre!
Olá, Daniela
Obrigado pela leitura e por deixar sua importante opinião!
Concordo contigo quando afirma a necessidade da integração “morte – vida”.
Ainda hoje, quando tocamos no assunto morte, percebemos a repulsa das pessoas em manter um diálogo sobre ela. Quando decidem manter a conversa, normalmente ela fica apenas no âmbito do religioso.
Por isso, gostei bastante do livro – em sua temática e na maneira como o autor metaforicamente a apresenta.
Pensarmos a morte não significa, como você bem coloca, negarmos a vida por conta do inevitável, mas, antes, refletirmos sobre a melhor maneira de usufruirmos o tempo que nos resta.
Parabéns Luciano!
Realmente esta é uma reflexão que todos precisamos fazer.
Acredito que não precisamos viver em função da Morte. Mas saber da sua existência nos coloca “limites” e aumenta o sabor de viver.
Obrigado pela sugestão!
Rosana
Luciano,
Que resenha magnífica! A Morte é um assunto que muitos não gostam de comentar ou falar sobre.
Em tudo que há no Universo há a sabedoria de Deus. A morte deixa-nos tristes,às vezes revoltados, mas se pararmos para pensar,existe o Ciclo da Vida e as lembranças,os atos,os gestos,as ações dos que se foram estão dentro de nós,através dos nossos sentimentos de amor,saudade,carinho,afeição,ternura que serão perpetuados em nossos descendentes,trazendo estes, muitas das características,personalidade e modo de vida daqueles que a Morte um dia os levou. A lembrança resgata tudo isso e conseguimos nos harmonizarmos e seguirmos em frente.
Parabéns e sucesso sempre e sempre em seus escritos.
Ana Maria
Olá, Rosana
Quero agradecer-te pela visita ao site, pela leitura do texto e, sobretudo, por deixar suas impressões!
Concordo contigo: conforme manifestei em resposta a alguns comentários acima deixados, creio que jamais devemos viver em função de que um dia não estaremos mais aqui.
Mais ainda, construirmos uma vida indexada a uma próxima que talvez ocorra, talvez não, não acredito ser o mais produtivo – embora isso já seja mera opinião pessoal.
Mas estou certo que, como você bem coloca, a percepção de que um dia nossa vida, como a conhecemos terminará, estimula-nos a tomarmos novas atitudes e empreendermos mudanças em nossa grade de valores.
Olá, Ana
Suas palavras, no que respeita à resenha, são extremamente gentis: mas se há algo de magnífico são antes o tema e a obra de Saramago sobre ele. Minha função, ao aceitar resenhar o livro e postar o texto aqui, é apenas a de divulgação e de convite à reflexão, no que quero muito agradecê-la por ter aceitado.
Diante de seu comentário repleto de fé, a morte fica ainda menos assustadora do que a sentimos cotidianamente.
Mas se a fé que você demonstra ao citar Deus é subjetiva, não podendo, então, pavimentar o caminho de todos em direção à morte devido à liberdade/diversidade de crença, todos os atributos que você cita como legado daqueles que já se foram são inquestionavelmente elementos de perpetuação da essência de quem já “vivenciou” a experiência da morte.
Gostei muito de sua reflexão sobre nos harmonizarmos por meio da utilização de tais atributos contidos nas obras deixadas por quem já partiu e na lembrança deles, sentida por quem é sabedor de que um dia também irá.
PARABÉNS PROFESSOR LUCIANO PELA RESENHA,
MUITO BEM DESENVOLVIDA.
O TEMA DO LIVRO É REALMENTE INSTIGANTE.
MISTÉRIO… QUE UM DIA DESVENDAREMOS.
ENQUANTO ISSO NÃO SE DÁ, FICAMOS NÓS A FILOSOFAR SOBRE O ASSUNTO.
Olá, Fabiana
Obrigado pela visita e pela leitura do texto!
Realmente, diante do que não conhecemos, só nos resta cogitar hipóteses, refletir sobre elas e agir coerentemente com relação à que nos parecer mais razoável.
Creio que devemos levar em conta para avaliarmos tal razoabilidade, não só a carga de possibilidade real que ela contenha, mas também os benefícios que ela possa trazer à constituição de uma vida pessoal e socialmente profícua.
A morte…
Embora todos saibamos que ela é inevitável, que sua “contribuição” é necessária e faz parte de um processo saudável, de um ciclo harmonioso, lamentavelmente, é ainda vista como um tema velado, oculto, indesejável nas conversas educadas, ao menos para nós, que vivemos sua concepção segundo a cultura ocidental.
Se alguém sentasse à mesa do jantar e dialogasse calmamente sobre como gostaria que fosse seu funeral ou de qual forma preferiria morrer, provavelmente causaria enorme espanto aos demais.
A morte faz parte da vida, do curso, do processo, mas como é difícil aceitá-la…
A angústia perante a incapacidade de mudar os fatos, o desejo incontrolável de manter presente o ente amado, intacto, protegido… Só quem experimentou essa sensação pode entender.
Como meio de defesa, é mais fácil não tocar no assunto, como se assim fazendo, pudéssemos nos esquivar.
É desconfortável pensar na morte daqueles que nos são caros ou na nossa própria.
Certa vez, quando vivenciei a experiência da morte de perto li um livro belíssimo sobre o assunto: Perdas necessárias, da Judith Viorst. É um livro voltado para psicologia, mas que nos faz refletir sobre todos os lutos que vivenciamos, desde a nossa concepção. Muitas vezes “morremos”. Muitas vezes vemos “morrer”. Os sonhos, os planos, a juventude…
Saramago é brilhante. Utilizou uma história irreal para tratar de assuntos sociais e políticos. O livro parece ser excelente. Com certeza, o lerei.
Quanto a resenha, parabéns professor. Está muito boa.
Outro dia fiquei pensando sobre um artigo do Rubem Alves e dei-me conta, do quanto somos egoístas em certos momentos:
Quero também ter a felicidade de poder conversar com meus amigos sobre minha morte. Um dos grandes sofrimentos dos que estão morrendo
é perceber que não há ninguém que os acompanhe até a beira do abismo.
Eles falam sobre a morte e os outros logo desconversam.
“bobagem, você logo estará bom…”
E eles então se calam, mergulham no silêncio e na solidão, para não incomodar os vivos. Só lhes resta caminhar sozinhos para o fim.
Seria tão mais bonita uma conversa assim:
“Ah, vamos sentir muito sua falta. Pode ficar tranqüilo: cuidarei do seu jardim. As coisas que você amou, depois da sua partida, vão se transformar em sacramentos: sinais da sua ausência. Você estará sempre nelas…”
Aí os dois se dariam as mãos e chorariam pela tristeza da partida e pela alegria de uma amizade assim tão sincera.
Olá, Luiz
Obrigado pela leitura e por postar um comentário tão enriquecedor!
Necessariamente, devo concordar com tudo o que disse.
A citação do artigo de Rubem Alves foi totalmente pertinente: o diálogo final entre quem está partindo e aquele que, mesmo desejando que a partida não aconteça, trata o fato com naturalidade, apesar da dor, ilustra pela negação aquilo que ocorre conosco quando passamos por algo similar.
Acredito que se nossos últimos momentos fossem permeados pela sinceridade que o diálogo apresenta, talvez a situação de paz interior para quem fica pudesse ser alcançada mais rapidamente, além de propiciar a chance de quem parte ouvir aquilo que sempre gostaríamos de dizer a ele quando já não temos mais a chance.
Mas tal sinceridade depende da maturidade sentimental, por isso, reafirmo a importância de amadurecemos nossa relação com a ideia de que vamos morrer, não para vivermos em função dela, mas para que ela nos seja um parâmetro de reflexão para o dia-a-dia.
Olá Lu,
Perdoe-me a demora em comentar seu texto, mas você sabe das minhas aventuras nos últimos dois meses.
Gostei muito da forma como elaborou o texto(fez Saramago parecer “light”…gostoso de ler…irc…). Bem voltando ao SEU texto e a pergunta, acredito que a Arte verdadeira ela imortaliza e a morte(como a concebemos) passa a ter um papel secundário, ou seja, aquele que fez de seu trabalho algo bonito de ser admirado, e temos vários exemplos( Da Vinci, MIchelangelo, Mozart, Tchaikovsky, etc..)cumpriu o seu papel diante da humanidade, pois a beleza é o caminho. Quem em sã consciência e admirador da Arte, se preocupa mais com qualquer informação sobre como essas pessoas morreram do que o que realizaram? A questão é o que o Espírito realizou enquanto matéria e o que isso agregou para sua evolução…em outras palavras…o que fizeram com os “talentos” com os quais Deus os presenteou.Portanto, a Morte é apenas o portal do material para o Espiritual.
Parabéns!!!
Olá Sir Luciano,
O senhor contínua o mesmo, está seguindo a lei “O ser não muda”, segundo Parmênides rsrsrsrs….Gostei da sua resenha, e do assunto que este livro aborda, apesar de eu ter refletido sobre: ” O que seria morrer?”, mas não havia levado em conta os problemas que podem acontecer caso uma civilização deixe de falecer.
Fiquei curioso para ler este livro Professor.
Abraços