Em janeiro do ano passado, eu e dois amigos estávamos entusiasmados com a ideia de publicarmos uma revista mensal. Cheguei nessa história um pouco mais tarde, juntando-me a eles em meados de 2007. Jornalistas recém-graduados em Filosofia, Gustavo Tortelli e Ricardo Melani trabalhavam desde 2005 em torno do projeto editorial da Kultur, uma revista de arte, cultura e filosofia que finalmente seria lançada em 2009.
Conseguimos do Minc a aprovação da Lei Rouanet e papel da Suzano Papel e Celulose para a edição de 6 números com uma tiragem de aproximadamente 20 mil exemplares (claro que podíamos diminuir a tiragem). Formamos um conselho editorial que reunia renomados professores de Filosofia, pessoas ligadas à imprensa mas descontentes com ela e o que mais parecia necessário para produzir um material alternativo ao leitor que quisesse refletir sobre a cultura.
Não parecia pouca coisa. Mas foi. Toda euforia durou até o fim de abril do ano passado, quando o dono de uma gráfica, que antes havia apalavrado o negócio – trocaria a impressão por abatimento em impostos - na última hora retrocedeu e disse que “não era bem esse o combinado”. Como tínhamos prazo para o uso do papel, saímos desesperados buscando meios para imprimir a revista número 1, toda ela diagramada e editada. Por desgraça, a maioria das gráficas a que recorremos não tinha o maquinário adequado ao tipo de papel que conseguimos. Resultado: ficamos apenas com a revista em PDF e o papel, que nunca chegamos a ver, devolvido.
No momento a Kultur está engavetada em HD’s e na cabeça de algumas pessoas. A lição que tirei desse trabalho ainda não concretizado é que no Brasil há uma confusão entre cultura e mercado de luxo. Se seguíssemos a orientação de alguns publicitários e homens de negócios, provavelmente a revista teria chegado às bancas, mas não seria a Kultur que idealizamos. Faltou – como muitos disseram – um projeto comercial. Talvez eles estejam certos. Privilegiamos nossa atenção ao material, na tentativa de produzir algo inédito e de boa qualidade que fosse capaz de seduzir o setor da sociedade que há muito tempo está cansado das publicações que não aprofundam suas análises sobre a realidade cultural deste país. Por não vendermos a alma da revista, pagamos o preço (consciente) de não publicá-la.
