Resenha – Simulacro e poder: uma análise da mídia – Marilena Chauí

Marilena ChauíNesta obra, a filósofa da Universidade de São Paulo, Marilena Chauí, propõe uma investigação crítica da mídia sob o crivo da filosofia. No início do texto destaca-se uma entrevista, realizada com exclusividade por uma rede de televisão brasileira, concedida pelo presidente da Líbia, momentos depois de ter a sua casa bombardeada pela aviação norte-americana, no ano de 1986 (Cf., p. 6). “Foi constrangedor para Kadaf e para os telespectadores ouvir as perguntas: ‘O que o senhor sentiu quando percebeu o bombardeio? O que o senhor sentiu quando viu sua família ameaçada? O que o senhor achou desse ato dos inimigos?’”.(p. 6). A ênfase aos sentimentos e a simples opinião do líder político é alvo da crítica da autora: “Nenhuma pergunta sobre o significado do atentado na política e na geopolítica do Oriente Próximo; nenhuma indagação que permitisse furar o bloqueio de informações a que as agências noticiosas norte-americanas submetem a Líbia”. (p. 6). A entrevista fora determinada pelas perguntas sentimentais e opiniáticas, de maneira que “[...] o acontecimento político foi transformado em uma tragédia doméstica e da vida pessoal de uma das mais importantes lideranças do mundo árabe”. (p. 6). O que o entrevistado pensa ou julga é deixado como periférico ao acontecimento político, de modo que estes são avaliados por opiniões como eu “gosto” ou eu “não gosto”. Portanto, ante as constatações deste procedimento sentimental que a mídia usa para maquiar os acontecimentos, a autora estende-o para outras esferas

Livros, filmes e resenhas também apresentam tal característica, ou seja, os códigos privados determinam a vida pública. Esta submissão do público em relação ao privado é clara nas propagandas: “Trata-se do mesmo procedimento usado diretamente na propaganda, que tanto pode recorrer aos estereótipos da dona de casa feliz (tendo orgasmo com a qualidade do detergente ou da margarina), [...] das crianças felizes e traquinas, prometidas ao amor familiar (o amor definido pela capacidade dos familiares de satisfazer imediatamente todos os desejos infantis, de gratificar imediatamente as crianças com o consumo de objetos, de cultivar o narcisismo infantil até suas últimas conseqüências)”. (p. 8). O julgamento de um produto é determinado, por exemplo, pela opinião particular de um personagem de novela que, apresentando o produto como um indivíduo comum, confunde os espectadores que o reconhecem como o personagem da novela, ou seja, do mundo da imagem, da ficção e da aparência. No que tange ao julgamento, conceitos como “verdade” e “falsidade” são substituídos por “credibilidade ou plausibilidade e confiabilidade. (p. 8). O espectador é visto como incapaz de pensar a imagem e a mídia faz a mediação entre a imagem e como o espectador deve interpretá-la.

Um exemplo disso ocorreu em uma missa católica no ano de 1990, ocasião da comemoração do aniversário da cidade de São Paulo. A catedral da Sé estava lotada, entretanto, entre os fiéis e o altar haviam inúmeros repórteres das diferentes redes televisivas que, além de atrapalharem a visão dos presentes que tentavam viver o momento sagrado do mistério da consagração, narravam tal acontecimento “[...] como se os que assistiam a transmissão não soubessem o que é a missa e precisassem de explicações”. (p. 15). Ora, para os fiéis que presenciaram a missa o papel dos repórteres foi um ato de profanação, todavia, para aqueles que acompanhavam pela televisão, talvez a missa tenha sido apresentada com dignidade. “Todavia, a missa que ouviram ou viram não foi a missa que aconteceu, mas o fantasma dela, seu simulacro, pois aquela que de fato aconteceu foi profanada”. (p. 15). A mídia é a máquina da imagem e a autora, com a maestria que lhe cabe, destrincha este maquinário midiático. A imagem oblitera, ou suprime, o indivíduo a interpretar e pensar, logo, a imagem torna-se propaganda indispensável, não só para os produtos de consumo, mas também para a realização de uma política de massa em que os participantes tornam-se alvos fáceis nas mãos dos profissionais da propaganda eleitoral.

O marketing político funcionaria como a pedra filosofal da política. Eis um exemplo: a campanha política de Fernando Collor de Mello era um verdadeiro apelo para o desenvolvimento, inovação e para o futuro, de modo que as apresentações do candidato eram verdadeiros filmes hollywoodianos, com chegadas triunfais aos comícios munido de helicópteros, holofotes das mais variadas cores “[...] indicando que o candidato vinha do alto, dos céus à terra – um enviado do Senhor”. (p. 43). O atual presidente Lula não fica longe disto: “Nos mesmos moldes, esta forma de propaganda marcou presença na campanha presidencial de Lula, em 2002, particularmente com a imagem produzida para as últimas transmissões: mulheres grávidas, vestidas de branco ‘telegênico’, dançando, correndo, andando, saltando em uma planície verdejante ao som do Bolero de Ravel, para significar que estávamos às vésperas do parto de um novo país”. (p. 43). Em suma, Collor foi deposto por corrupção pelos jovens de cara pintada. Estes porém, se é que sabiam o que faziam naquela ocasião, serviram de carro-chefe para inúmeras campanhas políticas posteriores. Lula, na campanha de 2002, mostrava o que seria o ponto chave de seu mandato: a propaganda. Diante destes dois casos indagamos: a democracia, entendida pela modernidade como democracia representativa, é a manifestação do pensamento do povo ou simples propaganda marqueteira?

Enfim, para aqueles que desejam entender o que é a fossa da imagem sem os tampões da mídia, o livro “Simulacro e poder: uma análise da mídia” de Marilena Chauí é indispensável.

CHAUÍ, Marilena. “Simulacro e poder: uma análise da mídia”. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 2006.

Andrei Venturini Martins

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