Era o ano de 1996. O Brasil já havia passado pela URV (lembram-se?) e chegado à moeda que subtraiu os zeros dos preços. Ano que conseguia meu primeiro emprego: auxiliar de loja num tradicional comércio de moda masculina. Entre outras coisas, devia cuidar do caixa. E aprendendo essa tarefa notei que nem todos os boletos eram registrados: alguns iam parar numa lista telefônica que servia de caixa. Nas primeiras vezes que perguntei ao gerente sobre isso, ele disfarçou e não respondeu. Até que um dia ele me chamou para conversar e baixinho perguntou:
- Já ouviu falar de “caixa 2”?
- Não, respondi a ele.
- Aqueles boletos que vão parar na lista telefônica são do “caixa 2”, são registrados depois que o cliente vai embora, num outro programa do computador. Não emitimos nota fiscal deles para os clientes.
- Então a lista telefônica é o “caixa 2″? - perguntei surpreso…
Ingenuidade à parte, conto que ele explicou que neste país uma empresa nunca paga todos os impostos, sob pena de fechar as portas. Nós e as empresas damos muito dinheiro ao governo e não obtemos nenhum retorno. Então, concluía ele, é preciso driblar o “sistema”.
Aos 15 anos de idade sonegava imposto, não meus, mas da empresa que me emprgava. Uma placa afixada na parede não me deixava esquecer: trazia o número da lei e alertava sobre o crime. Permaneci 8 anos na empresa, inclusive assumindo uma função de chefia, inovando na maneira de contar a um novato sobre o secreto “caixa 2″.
Não pense o leitor que era apenas nesses momentos que esse nome era evocado. A administração sempre se via em apuros quando demitiam um gerente. Geralmente, estes funcionários carregavam consigo documentos que comprovavam a existência da irregularidade e ameaçavam contar tudo à justiça caso não pagassem (e bem!) por eles.
Com o jeitinho brasileiro de administrar, também decidiram que 20% do nosso salário não seria declarado no holerite, prática hoje bastante comum. O argumento era basicamente o mesmo, “pagamos” (empregador-empregado) muitos tributos. O mais curioso, porém, desse tempo de comerciário, foi ter que trabalhar um dia inteiro remarcando mercadorias, porque um fiscal da receita havia baixado na matriz e encontrado irregularidades. Dizem que a vista grossa dele teria custado 200 mil dólares – imagine quanta irregularidade, a começar pelo próprio fiscal.
Mas, como dizia, nesse dia remarcamos tudo: cuecas, meias, gravatas, costumes etc. Retocando as etiquetas achava pouco inteligente aumentarem em 0,10 ou 0,15 centavos um item íntimo, quando podiam acrescentar 10 vezes esse valor num artigo mais caro, o que me daria menos trabalho. Não imaginava que meias e cuecas, anos depois, fossem valer tanto. Até tinha ouvido histórias de pessoas que colocavam dinheiro na meia/cueca para escondê-las de assaltantes. Só não tinha ouvido falar de bandido que coloca dinheiro roubado na meia/cueca.
Se você, fiscal, estiver lendo, pense quanto deixou de faturar. Se fosse um empreendedor visionário, teria exigido o pagamento em cuecas/meias. Poderia começar vendendo essas peças exclusivas em Brasília e, de lá, com recomendações, viajaria por todo o país como mascate, visitando prefeituras e outros balcões de negócio, podendo ainda conciliar as vendas com a sua atividade, que não sei exatamente qual é.
*Sucesso ao negócio das famílias Klein e Diniz (!). Só não precisavam dizer que estão preocupados com geração de empregos. Assim o nariz cresce mais!
