
O que pressupõe uma doutrina filosófica ou uma interpretação dela são materiais que o estudante de filosofia não pode ignorar. Entretanto, todos que se dedicam a essa tarefa sabe quão difícil é identificar esse dado fundamental, visto que o filósofo nem sempre o explicita, cabendo ao leitor reconstruí-lo quando da análise do escrito. Conscientes disso alguns mestres nos ensinam algo a respeito, como as aulas do inigualável professor Mario Porta e o seu livro A filosofia a partir de seus problemas, ou as aulas da professora Rachel Gazolla cuja advertência da necessidade de situar “o lugar de onde o autor fala” ensina o estudante a ler filosoficamente, para mencionar apenas dois exemplos.
E foi um pressuposto, não de um filósofo ou intérprete, mas meu, enquanto professor de filosofia de ensino médio, que acabo de verificar ao ler o instigante texto de Antonio Joaquim Severino, Desafios atuais do ensino da Filosofia, publicado na coleção Filosofar é Preciso de Edições Loyola, que já constitui material de referência aos professores do ramo (devo dizer que outro mestre me presenteou com o volume, o professor Marcelo Perine). Ainda não tinha notado que a minha compreensão da atividade docente escolar pressupõe algumas coisas. Assumindo que a filosofia tem um poder formador, passei a figurá-la como protagonista desse trabalho no lugar onde, equivocadamente, pareço atribuir um peso maior do que o devido: a educação. Não é que a escola deixou (se é que um dia foi!) de ser formadora, mas não devemos – como ensina o mestre Severino – imaginar, ingenuamente, que ela resolverá os maiores problemas do país, nem “mesmo o da formação das pessoas” (p. 18). Numa palavra, “a educação [escolar] é simplesmente uma aposta…” (idem). O conselho do autor é claro: devemos retirar dos ombros a ansiedade que nos escraviza, dada a nossa elevada expectativa em relação ao poder formativo da filosofia.
Ouço atentamente o que tem a dizer sobre o assunto alguém que devotou grande parte da vida a ensinar professores, ou seja, um formador. Em geral os mestres nos indicam o melhor caminho, seus atalhos e também os seus obstáculos. Mas não deixo de me perguntar o que pressupõe essa compreensão da educação como “aposta”: talvez quando jovem tenha sonhado mais do que eu e, agora, chegou à triste conclusão de que “apostou” demais. Seja qual for o “valor” que tenha investido, terá servido para aperfeiçoar e mudar o curso de mais um professor.

Anderson, gostei muito do texto!! Parabéns.