
O fim de ano na escola não reserva apenas a ansiedade, de cada vez menos alunos, é verdade, sobre os resultados das notas, aprovação etc. Muitos professores começam a se preocupar com a incerteza de seu futuro. Estarei na rede o ano que vem? Em quantas escolas irei trabalhar? O que mais mudará na famigerada atribuição de fevereiro, que distribui as aulas remanescentes dos efetivos?
Como se vê, começa a corrida para garantir o peru do próximo natal. O que se sabe, até o momento, é que os mais de 80 mil docentes contratados farão prova em Dezembro e, considerando o tempo de serviço, se classificarão para assumir (ou não!) aulas no próximo ano letivo. Você sabia que há professores na rede que se aposentaram nesse regime, como “contratados”? E que há mais às vésperas de aposentar-se?
É no mínimo estranho que tantos docentes trabalhem por tantos anos como “temporário-efetivo”. Mais espantoso ainda, saber que é o Estado a conduzir, por décadas, essa situação, e que é ele agora a discursar, sob o aplauso da imprensa, a necessidade da permanência do quadro de magistério na escola, valorização pelo mérito, entre outras medidas anódinas.
Contudo, nada mais triste do que registrar, na fala dos colegas, justificativas infundadas, como a de dizer que não foi aprovado em concursos porque o que se pede na prova não é compatível com o exercício da função e, também, a de que os jovens recém-formados estavam e estão com tudo mais “fresco” na cabeça. Em todos esses casos, segundo eles (inclusive os efetivos!), o tempo de docência é o maior empecilho. Aí fica evidente a falta de vocação e simpatia com a disciplina escolhida para lecionar (ainda mais se eles perdem de 1 a 2 horas por dia em frente à TV, sem mencionar a internet). De fato, reconhecer que não só deixou de aprender como também “desaprendeu”, é o claro sinal de que nunca soube, de que nunca tomou algo como objeto de estudo.
Se alguém optou pelo curso de licenciatura por causa do baixo valor das mensalidades, então está explicado o desinteresse pelo ofício de conhecer. Como me ensinou certa vez um professor de lógica, se você souber não só três, mas dez ou mais respostas a um problema matemático, isso possibilitará o melhor ensino dele, dado a familiaridade e desenvolvimento do raciocínio em torno da questão. É o que acontece também quando um professor das chamadas humanidades recorre, no ensino, a uma metáfora ou exemplo que ilustra o conhecimento de alguma coisa a que ele chegou mediante muito esforço, o que inclui necessariamente o tempo. Sim, paradoxalmente, o tempo do qual se queixam meus colegas.
