Nada de novo no reino do povo

Era uma vez um gato xadrez. Na verdade, ele teria que pular na panela e alguém gritaria: um, dois, três! Não sei se é bem essa a historinha. Mas, o gato xadrez, por ser xadrez, era muito visualizado por todos os outros gatos. Uns queriam ser iguais a ele, outros odiavam essa xadrezice. Vai daí que ele não pulava nunca na panela, porque uns gatos gritavam: não, não!!! E outros: sim, sim!! e ele ficava na beirada da panela borbulhante.

Um dia, apareceu por lá o Carlos Drummond que, diante da gritaria da gataiada, interrompeu seu passeio matinal. Como ele achava que Política não se discutia e que Governo há que ter sem frequentá-lo, como aconselhava seu amigo Samuel*, segurou o impulso da pergunta.

Quando pensava em retornar ao seu passeio, apareceu o Saramago: Olá, Carlos, você viu que gritaria? Que querem esses gatos? E conversa vai, conversa vem, o Saramago, ouvindo as colocações de Carlos, concluiu que, como Caim, o gato deveria perguntar se não era hora de fugir dali, antes que fosse demasiado tarde, pergunta ociosa**, afinal, já que o Senhor sabia de todas as determinações da vida, inclusive da vida dos gatos, e que as coisas se assim estavam, assim estavam… E também ele se foi.

Como esse caminho onde estava a panela com os gatos e o gato xadrez era muito transitado, mal viraram a curva Carlos e Saramago, quando Guimarães Rosa, com sua luneta, recolhia das árvores do lugar suas características para compor novos cenários para seus contos, pois ao traçar letras,careica de bem ler e escrever e ele regrava tudo isso na sua cabeça, pois bem sabia que Nicão, um, mau, logo lhe alcovitaria sobre suas pertenças letradas. Nem deu conta dos gatos, mas logo atrás dele vinha Jorge Amado, lampeiro, todo nos trinques, e chamou sua atenção para o acontecimento ali presente.

Diante dos gatos, naquele cenário perdido na imaginação, perguntou ao Rosa se o gato xadrez cairia ou não na panela. Mas Rosa, com ar complexo, indecifrável, respondeu: Sei não. Isso tudo tem que colher aos pedacinhos, sou de outra ribeira… Jorge Amado, leonino de raiz, olhou, pensou, adiantou-se, acercou-se do gato xadrez e perguntou por que ele não saltava de vez. E o gato, afinal, disse diante do silêncio geral:  Mas eu sou o gato xadrez, o gato da historia!!! Ela não pode acabar, não é?

Pois é, escrevo essa coisa sem nome (não é conto, não é romance, não é fábula, não é história sufi, não é resenha, não é …. sei lá mais o quê!) porque certas situações permanecem a contragosto; mas por algum motivo que só Caim pode saber, têm que permanecer. Então, não escrevo sobre o que li nos jornais nesta semana. Escrever o quê?

Até mais. 

*de “O Gerente”  / ** de “Caim”

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