A educação precisa de ideias, não de slogans

ideiaO editorial otimista da Folha de sábado em relação à aprovação do Programa Valorização Pelo Mérito deve ser lido com moderação, como todas as outras manifestações da imprensa em torno do tema. Não é que o os professores do estado de São Paulo não queiram receber, até o fim da carreira, 6 mil reais, e também não é que eles estejam seguindo orientação do seu desastroso sindicato, a Apeoesp. O problema está na formulação do projeto de lei complementar cujos traços são mais de propaganda política que de preocupação real com a educação.

Criado sob a justificativa de melhora da qualidade do ensino e com a promessa de atrair jovens brilhantes para o magistério, o projeto cria “oportunidade” para o docente se submeter a provas e análise da carreira, entenda-se permanência na escola e número de faltas, para poder receber o aumento progressivo, começando com 25%. Entretanto, tudo isso deve estar de acordo com o orçamento do governo e respeitar os 4 anos iniciais para fazer a primeira avaliação e, depois, a permanência de no mínimo 3 anos em cada etapa avançada. Então, de vagar com o andor que o santo é de barro!

Nada indica que esse projeto tenha forte impacto na qualidade de ensino das nossas crianças e jovens. Não acredito que esse programa desperte o interesse de jovens, sobretudo na elite paulista, para ingressar na educação. Conheço uma dúzia de estudantes brilhantes que não se sujeitariam a receber, nesses 4 primeiros anos, salário igual ou inferior ao que recebem um motoboy, um vendedor de loja, um auxiliar administrativo, uma recepcionista, por exemplo, isso sem falar das péssimas condições de trabalho. Além disso, não será surpreendente que o número de professores promovidos sejam maiores justamente em ano eleitoral.

Não é justo e nem compatível com a educação brasileira um educador de nível fundamental e básico receber um salário acima de 6 mil reais, como também não é justo que professores recebam vencimentos inferiores às profissões mencionadas. Com isso não deixo de reconhecer que muitos professores infelizmente ganham mais do que merecem, sendo o culpado por isso o estado e não eles. Por fim, é importante notar a falência de ideias de governo e imprensa para o tema. Talvez fosse o caso de repórteres e editores das redações, interessados em discutir seriamente a educação, guardarem os ternos, visitarem menos o congresso e saírem mais às ruas, às escolas para conhecer e refletir o que se passa no ensino. Não vou pedir esse absurdo aos políticos…

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Graduado e Mestrando em Filosofia pela PUC-SP, é professor de Filosofia na rede de ensino do Estado de São Paulo.