Historinha Sufi – Do Solstício

images-desertO deserto começava a ficar mais quente do que era seu costume, e o velho sábio caminhava com dificuldade. Pensava, ao ver o perfil de uma aldeia no horizonte, que seria bom descansar, comer tâmaras e beber água fresca. Sentia-se velho e, talvez, chegava sua hora de morrer. Já previa a dificuldade em relacionar-se com as pessoas, tanto tempo estivera só desde o último inverno. Sempre tivera uma boa palavra a dar a quem quisesse ouvir, mas se acostumara, de uns tempos para cá, a não pensar em si e em nada mais, enquanto a solidão do céu e deserto misturavam-se a ele, quase sem linhas divisórias.

Naquela tarde, no entanto, à medida em que se aproximava da aldeia sentia-se estranho, entre um grande regozijo no coração e uma tristeza imensa que inundava seus olhos. Chegando ao poço de entrada da aldeia, alguns homens e crianças ali descansavam. Em silêncio, bebeu da água fresca e também se sentou à sombra. Um menino aproximou-se e lhe perguntou:

-Qual é seu nome, senhor?

-Não sei mais, criança.

-O meu é Ranil. Gosto de conversar, minha mãe diz.

-Ah, é uma boa coisa, por vezes. Outras vezes, pode não ser uma boa coisa, Ranil.

-Por que, senhor?

-Quem conversa muito, alguma bobagem sempre diz.

-E quem não conversa?

-Não diz bobagem…

-É certo, senhor, é certo.

Ficaram calados por largo tempo. Mas o menino, inquieto, voltou a perguntar:

-De que lugar é, senhor?

-Do mundo, Ranil.

-Ah, então é por isso que o senhor não tem nome e nem fala muito!

-Não entendi. Explique-me.

-O senhor vai ficando velhinho e vai esquecendo tudo, e nem precisa conversar porque vai esquecer mesmo, em qualquer lugar que esteja…

O sábio ficou surpreso e triste, pois não deixava de ser verdade o que ouvia. E, ao mesmo tempo, um sentimento de alegria e esperança surgiu, porque soube que deveria continuar um pouco mais a ensinar e saber de si mesmo, e que fôra uma criança a dizer-lhe isso.

Rachel Gazolla

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