Há quem diga que uma imagem vale mais do que mil palavras. Em alguns casos, quem sabe, até pode ser. Mas eu, amante das palavras, penso antes que uma palavra é capaz de evocar mil imagens.
Comparava os relatos de viagem de duas amigas que há pouco estiveram na Europa. Ambas formadas, ambas gostam de fotografar, ambas escrevem bem – ainda que uma delas, não só pelo título de jornalista como pelas vivências extra-acadêmicas, possua um estilo mais solto. Os relatos da primeira foram feitos principalmente por meio de fotografias: a vemos nas cidades que visitou, em barzinhos, em festas, em restaurantes, no teatro; as fotos geralmente seguidas por alguma breve legenda para não ficarem totalmente aéreas aos amigos que resolviam dar uma passada pelo blog ver quais as últimas. Já a segunda, a formada em jornalismo, a Helô, fez seus relatos inteiramente em texto, ainda que não tenha poupado sua máquina durante a viagem. A diferença entre ambos é enorme. Com as fotos vemos, ah, legal, algumas cenas, paisagens. Mas que na internet achamos mais bem tiradas – em dia de sol, em visão panorâmica –, e que com o Photoshop podemos nos pôr nesses lugares. Já com o texto, passeamos junto com a Helô, sua mochila de doze quilos e a minha encomenda de mil e novecentas páginas, na direção errada para o albergue na madrugada parisiense.
Infelizmente relatos como os da Helô estão por baixo hoje em dia. Não somente porque demandam mais tempo de quem escreve, como de quem os lê. E penso que o principal motivo seja a superdependência do olhar que atualmente vivemos. Tudo precisa ser visto, ainda que pouca coisa seja realmente olhada, observada. E a nossa experiência – cada dia mais parca, rasa – se confunde com esse olhar. Não nos damos conta de que a experiência de estar em Paris ou Londres ou São Paulo, mesmo, vai além do que se vê, exige muito mais da visão: nosso estado de espírito, o estado do tempo, as expectativas carregadas e as sensações despertadas. Quem sabe mil imagens dêem conta de parte disso – como um texto –, mas precisarão ser trabalhadas e ir além de algumas fotografias.
Termino esta crônica com um pedido aos amigos que vão passar um tempo além-mar para mandarem seus relatos em garrafas virtuais. Ainda mais quando são observadores sarcásticos e escritores espirituosos – até por ser uma forma de diminuir a saudade. Seja em Granada ou alhures. Sim, Hugo, é para você: uma boa viagem, mande notícias, relatos, e até fotos, de vez em quando!
