Relembre a vida e a obra de Millôr Fernandes (1923-2012)

Sofremos em menos de uma semana a perda irreparável de dois gigantes da cultura brasileira: na sexta-feira última, falecia Chico Anysio. Ontem, terça (27) à noite, foi a vez do multiartista (escritor, tradutor, humorista, dramaturgo, desenhista, poeta, jornalista) Millôr Fernandes, aos 87 anos. Fernandes faleceu em sua casa, no Rio de Janeiro, em decorrência de falência múltipla de órgãos. Em fevereiro de 2011, o humorista havia sofrido um AVC isquêmico e passou a receber tratamento em casa, quando teve de retornar ao hospital, em junho, por causa de uma pneumonia. Além de artista, Millôr foi um grande intelectual brasileiro, tendo escrito e traduzido livros, além de adaptar diversas obras para teatro e televisão. O desenhista também ficou célebre por seus aforismos brilhantes e lapidares, os quais esbanjam perspicácia psicológica e gênio literário, prezando sempre pela acidez crítica que seu humor consegue destilar com excelência (confira abaixo algumas “pérolas” do Millôr).

Em 1943, após passar pelo “Diário da Noite” e pela revista “A Cigarra”, onde criou seu pseudônimo “Vão Gogo”, Millôr foi trabalhar para a revista “O Cruzeiro”. Autodidata, em 1942 fez sua primeira tradução, a saber, de “Dragon Seed”, romance da escritora norte-americana Pearl S. Buck, que Millôr intitulou “A Estirpe do Dragão” em português. Por seu talento nesta função, tão difícil quanto ou ainda mais, segundo  alguns, do que escrever propriamente, ele viria a ser considerado o maior tradutor de Shakespeare no Brasil.

Em 1946 , estreou como escritor, com o livro “Eva Sem Costela”. Sete anos depois, foi montada a primeira peça de teatro de sua autoria: “Uma Mulher em Três Atos”. Em 1964, aos 41 anos, editou a revista humorística “O Pif-Paf”,  pioneira na chamada imprensa alternativa. Quatro anos depois, participou da fundação do jornal satírico “O Pasquim”, uma dos veículos mais críticos à ditadura militar durante os anos 70. A publicação teve colaboração de Ruy Castro, Paulo Francis, Ivan Lessa, dos cartunistas Jaguar e Ziraldo, entre outros nomes importantes do jornalismo brasileiro. Autor de mais de 40 títulos literários, o cartunista foi colaborador de diversos jornais e publicações ao longo dos últimos 60 anos, entre eles “Folha de S. Paulo”, “Correio Braziliense”, “Jornal do Brasil”, “Isto É”, “O Estado de S. Paulo”, “O Dia” e “Veja”.

Como desenhista e chargista, tendo cursado o Liceu de Artes e Ofícios do Rio de Janeiro (1938-1943), teve seus trabalhos expostos no Museu de Arte Moderna (MAM) do Rio de Janeiro mais de uma vez. Em 1981, seus trabalhos visuais foram compilados e publicados no livro “Desenhos” (editora Raízes Artes Gráficas).

Confira abaixo alguns aforismos memoráveis de Millôr Fernandes:

“As pessoas que falam muito, mentem sempre, porque acabam esgotando seu estoque de verdades.”

“Chato…Indivíduo que tem mais interesse em nós do que nós temos nele.”

“Como são admiráveis as pessoas que não conhecemos muito bem.”

“De todas as taras sexuais, não existe nenhuma mais estranha do que a abstinência.”

“Nós, os humoristas, temos bastante importância para ser presos e nenhuma importância para ser soltos.”

“O melhor movimento feminino ainda é o dos quadris.”

“O dinheiro não só fala, como faz muita gente calar a boca.”

“O mal do mundo é que Deus envelheceu e o Diabo evoluiu.”

“Ser pobre não é crime, mas ajuda muito a chegar lá.”